Quem sabe

Publicado: 03/07/2013 em Uncategorized

Quanto mais ignorante, mais cheio de razão. Porque aquele que sabe, sabe o quanto a sua razão ignora.

Rainy Day (Dia Chuvoso)

Publicado: 22/10/2012 em Uncategorized

I really like a rainy day

 

O som da água escorrendo pelo bueiro;

O frescor do vento;

A pureza do ar.

 

I really like a rainy day

 

A paz que eu sinto;

Os pensamentos que Deus sopra nos meus ouvidos;

A liberdade que me faz viajar.

 

I really like a rainy day

 

Um bom filme para assistir;

Daqueles que fazem a gente dormir;

E esquecer que no outro dia temos que trabalhar.

 

I really like a rainy day

 

Com você do meu lado;

Jogando um baralho engraçado;

Deixando a imaginação fazer acontecer.

 

I really like a rainy day

 

Nossos corpos molhados;

Lábios em contato;

Apenas eu e você.

 

E quando o sol vier;

Eu já não vou mais estar;

Mas enquanto nublado estiver;

Pra sempre eu vou te amar.

 

E eu espero que você faça o mesmo;

Do contrário, não tenha medo;

Pois sozinho eu não vou ficar;

As nuvens jamais irão me abandonar.

 

Cause I really like a rainy day. Don’t you?

Amanhã?

Publicado: 03/10/2012 em Uncategorized

Às vezes me sinto como se estivesse em um daqueles filmes em que, após a meia-noite, o mesmo dia recomeça. E repetimos tudo outra vez, outra vez e outra vez. Como se o dia e a noite simplesmente fizessem parte de uma ilusão. Uma ilusão chamada amanhã.

Meu primeiro post sobre viagens não poderia ser melhor: Santiago, a multifacetada capital chilena. Eu e a Gil estivemos lá durante a última semana. E foi perfeito.

Antes de começar a falar da viagem em si (hotel, passeios, restaurantes), tenho que revelar o meu perfil de viajante. Não sou mochileiro, e nem esbanjador. Creio que o hotel e a gastronomia devem ser desfrutados tanto quanto um passeio, como parte da viagem. Por isso, não fico e nem  como em qualquer lugar. O hotel deve ser aconchegante o suficiente para que, ao fim do dia, cansado, eu tenha vontade de voltar até ele. Além disso, certifico-me de que cada refeição seja uma experiência diferente. E não falo só de restaurantes caros, mas principalmente de experimentar a comida local, ainda que seja um fast-food que eu ainda não conheça (como o Doggis, em Santiago). Por fim, em relação aos passeios, evito ao máximo fazer tours com empresas, por uma série de motivos que renderiam um post exclusivo. Assim, faço a maioria deles por conta própria, usando transportes coletivos (metrô e ônibus, principalmente) ou, se necessário, táxi. Acho que esta é a melhor forma de fazer uma imersão na cultura local. Além disso, gasta-se menos tempo e dinheiro. É muito melhor aproveitado.

Dito isso, vamos a Santiago.

Hospedagem

Ficamos no Hotel Boutique Le Rêve (www.lerevehotel.cl), diária de 199,00 USD pelo Booking.com. O Hotel Le Reve é perfeito para casais de qualquer idade, em lua-de-mel ou não. Para todos aqueles que buscam um hotel intimista, que nos faça sentir em casa, com um conforto ímpar. No quarto, tivemos água como cortesia, um ótimo vinho por 20 USD, toalhas e lencóis trocados todos os dias. Isso sem falar no lanche servido aos finais de tarde, com suco, bolachas, café e frutas disponíveis sem custo adicional. Todos os detalhes são cuidadosamente observados. Os funcionários muito atenciosos. E, pra arrematar, o hotel fica no coração do Bairro Providência, a menos de 3 quadras da estação Pedro de Valdívia da linha vermelha do metrô, que te leva a quase todos os lugares da cidade. Recomendaria a qualquer casal que busca um lugar romântico para ficar.

Santiago tem uma infinidade de hotéis. A grande maioria dos bons hotéis tem diárias a partir de 150 USD, e ficam nos Bairros Providência (onde ficamos e eu recomendo) e El Golf.  Eu não ficaria no Centro, por ser mais movimentado, menos seguro e menos bonito. Como nosso vôo chegou durante a madrugada, para não queimar uma diária no Le Rêve, resolvemos ficar num hostal só por uma noite, já que eu e a Gil nunca tínhamos ficados nesse tipo de acomodação. Ficamos no Hostal Rio Amazonas (diária de 33.000 pesos chilenos), recomendado pelo Blog Viajando com Pompolhos (http://viajandocompimpolhos.wordpress.com/2010/05/10/santiago-do-chile-e-valle-nevado-dicas-do-enzo-3-anos-e-meio-e-dos-seus-pais/). Parece ser um bom Hostal: atmosfera amigável, localização interessante, limpo, e com bom café da manhã. Mas fica num casarão antigo, com assoalho rangente. Como chegamos de madrugada, foi meio assustador. As luzes estavam todas apagadas e, enquanto o recepcionista nos levava ao nosso quarto, ficamos na escuridão total até ele achar o interruptor hahaha Sobrevivemos, mas dificilmente conseguirei convencer a Gil a fazer isso novamente.

Passeios

Santiago tem uma infinidade de passeios diferentes para fazer. Pode-se passar uma semana apenas esquiando na neve, ou visitando vinícolas, ou fazendo compras ou ainda num tour gastrônimo pelos inúmeros bons restaurantes da cidade. Nós fizemos um pouco de tudo, para conhecer o que a cidade tem de melhor. A ordem a seguir é totalmente aleatória, e só inclui o que nós efetivamente visitamos.

1) Vinícola Concha y Toro: pra quem gosta de vinho, é indispensável. Ouvi muita gente falando mal, que é uma vinícola comercial e tal. Mas nós adoramos. Penso que quem não gosta é porque: 1) Não gosta de vinho e/ou; 2) Fez o tour regular. Nós fizemos o tour Marquês da Casa Concha, que além dos dois vinhos da visita regular, inclui a degustação de mais quatro, acompanhados de queijos e pães, com o auxílio de um sommelier. Muito bom mesmo. Para ir até lá, é muito fácil: basta descer na estação La Mercedes do metrô (L4), e seguir de táxi até a vinícola. Demora mais ou menos uma hora saindo da Providência. Reserve antes pelo site. Passeio de meio dia.

2) Cerro San Cristóbal: bom para se ter uma visão geral da cidade e da cordilheira. É bonito, mas nada se comparado ao morro do Cristo no Rio.Vale a foto.

3) Mercado Central: Tire uma foto na fachada e caia fora. Dá até pra almoçar lá dentro, mas não caminhe muito por lá. Em alguns lugares o cheiro é insuportável. Minha dica: almoce ou faça um lanche no shopping VIVO, que fica no Paseo Ahumada, bem próximo dali e no caminho para os outros pontos turísticos do centro. O cachorro-quente do Doggis é uma delícia. Sim, seu sei que disse lá em cima que gosto de comida típica. Mas vc pode comer frutos do mar frescos em outro lugar. E é falsa a ideia de que é mais típico só pq é no Mercado Central. Garanto que a maioria avassaladora de santiaguinos também não almoça ali.

4) Centro: Saindo do Mercado Central, com um mapa na mão, vc pode visitar todos os monumentos do Centro a pé. São vários prédios importantes da cidade. O que eu mais gostei foi o Palácio da Moeda, pelo apelo histórico. Agora, se vc não curte prédios históricos, nenhum deles vai te impressionar simplesmente pela arquitetura (para os leigos em arquitetura, claro). Sinceramente, se eu tivesse apenas 3 ou 4 dias na cidade, dispensaria o Centro e o Mercado Central sem dó.

5) Parque Arauco: Shopping muito bacana, enorme. Tem as lojas de departamentos mais famosas (Ripley, Falabela e Paris, que vc encontra em qualquer canto da cidade) e muitas outras. Mas o shopping do momento em Santiago é o recém inaugurado Costanera Norte.

6) Cordilheira dos Andes (Valle Nevado e Farellones): Outro passeio indispensável. Tanto pela cordilheira em si como pela neve. Quando nós fomos (20 junho 2012), as pistas de ski ainda não estavam abertas, mas já tinha muita neve, principalmente no Valle Nevado. Esse é um daqueles passeios em que é imprescindível fazer um tour com uma empresa, pois a súbida é muito íngrime e cheia de curvas, além de vc ter que colocar correntes nos pneus por causa da neve. Fizemos o Andes Panorâmico, com a Turistik (23.600 pesos por pessoa), e foi inesquecível! Não esqueça de se agasalhar muito bem, com gorro e cachecol. Eu esqueci a minha toca e tive que comprar uma lá em cima, pq minhas orelhas estavam congelando (tive a sensação de que iram trincar de tão geladas). E não deixe de alugar botas, calças e luvas impermeáveis (cerca de R$ 50,00 por pessoa). Elas são absolutamente necessárias pra quem quer brincar na neve. Luva de lã não serve, vai ficar toda molhada. A turistik para numa loja no meio da caminho para alugar as roupas. O passeio dura um dia inteiro.

OBS: A nossa primeira opção era pegar uma van da Ski Total somente para subir até Farellones (10.000 pesos chilenos por pessoa), onde planejávamos passar o dia entre brincadeiras na neve e esquiando. Mas, como a temporada de ski ainda não tinha começado, mudamos os planos. Mas vale a dica: pra quem quer esquiar, não vale a pena pegar o passeio para mais de uma estação, pq sobra muito pouco tempo para atividades paralelas, como esquiar. Escolha uma e passe o dia inteiro nela.

7) Valparaíso: Eu e a Gil chegamos lá apenas às 13h, e por isso não fomos a Viña del Mar. Valparaíso é uma cidade portuária bastante curiosa, daquelas do tipo: ame ou odeie. A Gil odiou e eu também estava, até irmos a La Sebastina, uma das três casas do poeta Pablo Neruda. De lá, pude ter uma visão melhor da cidade (influenciado por Neruda e pela visão do Pacífico que se tem lá de cima) e acabei ficando com uma boa impressão. Para ir até Valparaíso, basta ir até a estação Universidade de Santiago do metrô. Lá tem uma estação de ônibus anexa, de onde partem ônibus da turbus a cada 15 minutos para Valpa. Nós pagamos 2.500 pesos chilenos por passagem, total de 10.000 pesos chilenos. Chegando na rodoviária de lá, tem várias empresas que oferecem tours pelas duas cidades. Nós preferimos fazer por conta própria mesmo e deu tudo certo. O principal em Valpa é subir os cerros (a parte baixa é suja e cheia de cachorros) e ir a La Sebastiana. A linha 612 do ônibus local te deixa na porta da casa do Neruda.

8) Vinícola Undurraga: foi recomendação de uma casal de amigos do Rio que conhecemos no hotel: Daniel e Cris. Este vinícola é bem menor que a Concha y Toro, e o lugar é lindo. Agendamos o tour para as 14h, e quando chegamos lá, só tinha nós! Fizemos um tour privado, com um guia bem bacana. Vale a pena porque o processo de fabricação de uma vinícola pequena é um pouco diferenciado. Para chegar lá, basta desembarcar na Estação Central do Metrô (linha vermelha) e pegar um ônibus na Estação San Borja, anexa, para Talagante, pela Autopista, que te deixa no portão de entrada da vinícola.

9) Feira Los Dominicos: passamos rapidamente por lá. Não achamos muito coisa legal de artesanato em Santiago e arredores. Mas este é o lugar que concentra o maior número de lojas. Vale a pena conhecer. Eu e a Gil não compramos nada ali pra nossa coleção de lembranças de viagens. Eu queria uma coisa, ela outra. Acabamos não comprando nada. Ainda bem que encontramos um prato bem legal na loja do aeroporto depois, senão acho que eu ia apanhar dela quando chegássemos em casa hehehe. Para ir até essa feira é muito fácil tmb: basta ir até a estação a última estação da linha vermelha (Los Dominicos) e caminhar até a feirinha, que fica bem próxima, perto de uma igreja.

10) Mall Sport: Shopping de esportes extremamente bacana. Além de lojas de todos os esportes, tem escalada, bike, pista de skate, ondas artificiais. Muito legal mesmo. Compramos um jogo de poker bem barato lá, mas não espere encontrar bons preços nas lojas. É um shopping de alto nível $$$, se é que me entendem.

11) Buenaventura Premium Outlet: Esse foi o único outlet que visitamos e achamos algumas coisas bem bacanas. Tem muita marca boa. Fica meio afastado, mas dá pra ir tranquilo. Descemos na última estação da Linha 2 do metrô (Vespucio Norte) e seguimos até lá de táxi (mais ou menos 7.00 pesos chilenos). Mas lembre de pegar o telefone do taxista e combinar a volta. Lá é muuuito difícil de conseguir táxi para voltar. Como estávamos cheios de sacolas e meia caixa de vinho, voltamos de táxi até a Providência (cerca de 12.000 pesos chilenos).

Restaurantes

(em construção)

Dicas diversas

Transfer aeroporto-hotel: se vc vai em 2 pessoas ou menos, convém utilizar o táxi compartido da TRANSVIP, que custa 6.000 pesos chilenos por pessoa. Os carros deles são ótimos. Para 3 pessoas ou mais, vale a pena pegar um táxi qualquer, que cobre cerca de 15 mil pesos chilenos.

Com que dinheiro eu vou? Seguindo a dica do Ricardo Freire, recomendo levar pouco dinheiro local em espécie. O melhor é sacar o equivalente a 300 USD em moeda local em um caixa eletrônico d0 aeroporto do destino (para táxi, lojinhas de artesanato e outros locais que não aceitem cartão) e pagar todo o restante no cartão, que, apesar do IOF, tem boa cotação, é seguro, prático e vc ganha milhas para viajar mais.

Bebida típica: Pisco sour: não achamos grande coisa não. Sou muito mais a nossa caipirinha.

Meu guia: o Blog Viaje na Viagem (http://www.viajenaviagem.com/americas/santiago-ricardo-freire/), do Ricardo Freire, foi o meu guia para para essa viagem. Mas também pesquisei em muitos outros, pegando o que cada um tinha de melhor. Uma ótima ideia é ver as críticas dos hotéis e dos passeios no Tripadvisor.com.br. Pesquise muito antes pra não se arrepender depois.

Supresa positiva: o povo chileno é muito hospitaleiro e atencioso. Por duas vezes eu estava parado, olhando o mapa no meio da rua, e fui abordado por locais pedindo se eu precisava de ajuda. E em TODAS as vezes que pedimos informação, elas faziam questão de nos ajudar e, inclusive, ir caminhando um pouco junto conosco para nos mostrar o caminho certo a seguir. Teve uma vez que pedimos para o mensageiro tirar uma foto nossa em frente ao hotel. Depois que ele tirou, nós continuamos lá batendo outras fotos um do outro, de bobeira. Nisso, o recepcionista sai pra fora e pede se a foto não tinha ficado boa e se a gente queria que ele tirasse outra. Incrível!

Excesso de bagagem: Se for comprar vinhos, cuidado com o excesso de bagagem. Nós trouxemos uma caixa com 12 garrafas (que pesou 16 kg) e tivemos que pagar pelo excesso.

Enfim, Santiago é uma cidade maravilhosa, em que se pode conciliar atividades muitos distintas. Achamos tudo muito seguro e bem organizado. Provavelmente voltaremos no futuro, nem que seja apenas de passagem.

Boa viagem!

Grêmio perdendo para o Ypiranga, por 1×0. Diagnóstico: Caio Júnior escalou mal o time. Sem primeiro volante, pois Fernando gosta e sabe sair pro jogo, os zagueiros ficaram no mano a mano. Naldo perdeu a dividida, Groli ficou no dois contra um, sem ter o que fazer.

Em tempo, Caio percebeu que Leandro não é jogador de meio-campo, e colocou Gilberto Silva em seu lugar, adiantando Marquinhos e deixando Fernando mais à vontade para atacar. Acho que agora achou a meia cancha ideal, pelo que tem à disposição. Precisamos de um meia de criação (e visão, ao estilo Douglas, só que menos lento e dorminhoco) urgente! Nem Marquinhos e nem Marco Antônio tem habilidade suficiente para exercer essa função. Esse dois devem se revesar na função de terceiro homem de meio campo.

Ah, e claro, precisamos de um zagueiro experiente para fazer companhia a nossa maior promessa, Douglas Groli. Há muito tempo não via um jovem zagueiro com tanta técnica para sair jogando.

Vamo que dá, Grêmio.

Light effects

Publicado: 07/03/2011 em Uncategorized

Proteção ambiental em Balneário Camboriú e região? Segue a entrevista do meu ex-chefe, o Procurador da República Dr. Pedro Nicolau Moura Sacco, para o Diarinho.

Parabéns, Dr. Pedro.

ENTREVISTÃO
PEDRO NICOLAU MOURA SACCO
12/02/2011

“Não creio que a partir desse caldeirão político que há hoje em Balneário vá sair qualquer coisa que seja benéfica à questão ambiental”

A fala calma e pausada do procurador da República de Itajaí, Pedro Nicolau Moura Sacco, pode confundir os desavisados. Dono de extrema polidez nas palavras, fruto provavelmente dos anos em que atuou na carreira diplomática, nas embaixadas do Chile e da Venezuela, o doutor não tem papas na língua quando trata de assuntos como meio ambiente e defesa das minorias. Homem de caráter firme, abriu mão da carreira diplomática para ingressar no Ministério Público e ter a oportunidade de lutar pelo que considera importante. Nesta entrevista, concedida às jornalistas Dagmara Spautz e Rosângela Ricardo, ele fala sobre o polêmico projeto de construção de um resort em Taquarinhas, dos mistérios guardados pelas muralhas de concreto de Balneário Camboriú, da dominação do poder econômico e de como, muitas vezes, as lutas do MPF têm resultados frustrantes.

DIARINHO – Doutor, o senhor pode explicar aos nossos leitores a função de um procurador da república?
PEDRO NICOLAU – A função principal é a defesa da sociedade, da ordem jurídica. Antes da Constituição de 88, ele tinha que defender também o estado federal, no caso a União. Agora não, é a defesa da sociedade. Quem faz a defesa do Estado, da União, é a AGU, a advocacia Geral da União. [Enquanto procurador, o senhor se sente realizado?] Parcialmente sim, porque você não precisa confrontar suas próprias ideias, fazer coisas que confrontem seu foro íntimo. Agora, ao mesmo tempo, as iniciativas não são muito exitosas, porque o sistema jurídico brasileiro não é destinado à proteção da sociedade como um todo, é destinado à proteção de camadas determinadas. Isso é algo que frustra.

DIARINHO – O senhor já foi diplomata e abandonou a carreira em busca de mais liberdade de atuação. Sentiu essa mesma dificuldade da carreira diplomática no MPF?
PN – A carreira diplomática é hierarquizada, tem uma hierarquia quase militar, então você tem que cumprir ordens, e muitas vezes as ordens não são bem aquilo que você gostaria que fossem. Mas é a política do governo e você é um advogado daquele governo que está ali. Se muda o governo, muda a política externa, você vai defender com muito ardor aquela outra política externa, seja ela qual for, concorde ou não com ela. Ao menos como procurador da República você tem um pouco mais de independência, liberdade de ter suas próprias opiniões, de defender suas próprias opiniões. Pra mim isso é importante. Tem pessoas que se importam pouco com o fato de defenderem algo com o qual não concordam. Eu me importo com isso.

DIARINHO – O senhor citou a Constituição de 1988, que ampliou as atribuições do Ministério Público na atuação em defesa dos interesses do povo e das classes marginalizadas. Recentemente, o DIARINHO noticiou a tentativa de tocar indígenas das ruas de Balneário Camboriú para uma praça. O Ministério Público Federal tentou garantir o direito deles de venderem seus artesanatos onde bem entenderem. Mas a justiça decidiu que eles deveriam obedecer as regras do município. Em entrevista ao DIARINHO, eles pediram ajuda, inclusive doação de comida. Por que a maioria dos indígenas vive nessa situação humilhante de miséria e inferioridade?
PN – Há situações piores. Há indígenas no Mato Grosso do Sul e Mato Grosso que vivem em situação de miséria completa, inclusive com declínio bem forte da população. Tudo isso é um modelo de país: falta de vontade política, predomínio de certo modelo de produção, do agronegócio, que pega as terras dos indígenas; a grilagem de terras, que ocorreu no país e ainda ocorre hoje; as dificuldades de demarcação de reservas indígenas por conta dessa confusão que são os registros de imóveis do Brasil. Tem municípios do Brasil que têm registrados várias vezes o seu território com diferentes proprietários. O Pará, por exemplo, tem no registro de imóveis quatro vezes o território do estado. Então é muito difícil fazer essa demarcação. A pressão política contra a demarcação, contra a Funai, é muito forte. Nem fui eu que fiz essa ação de Balneário Camboriú no passado. Foi uma ação de 2006, se não me engano, de um colega meu, que entrou com mandado de segurança dizendo que os indígenas não poderiam ser considerados meramente comerciantes. Teria que ter uma visão especial sobre eles, sobre o direito deles de ir e vir, que eles poderiam vender seus artesanatos onde achassem mais conveniente. Mas não teve sucesso na justiça Federal.

DIARINHO – Não é um contrassenso que em Balneário Camboriú a prefeitura permita a uma empresa privada lotear a praia para a realização de um show, e não permita aos indígenas vender artesanato onde bem entendam?
PN – Realmente. Entre os bens públicos tem aqueles chamados bens de uso comum, que qualquer um pode usar livremente, e a praia é um deles. Considero sim um contrassenso permitir a colocação de uma estrutura na praia, camarotes com salas, com banheiros, pra fazer um espetáculo privado e muito bem pago. Não pelo espetáculo em si, pelo evento isolado, mas pelo precedente. Eu interpus uma ação civil pública tentando prevenir que isso vire um hábito. Porque daqui a pouco vira um hábito em Balneário fazer esse tipo de evento: privatizar a praia, fazem ali até de repente um palco permanente, camarotes permanentes, e cobram ingressos… Isso é uma privatização do espaço público. E é ilegal, é contra a lei.

DIARINHO – Nessa ação, o senhor faz uma afirmação: “trata-se da Maravilha do Atlântico(BALNEÁRIO CAMBORIÚ – ), onde tudo pode”. É realmente isso o que acontece em Balneário Camboriú?
PN – Infelizmente, é o que me parece. Todo o litoral do Brasil é dominado pela especulação imobiliária, mas em Balneário Camboriú essa especulação aparece de uma maneira mais agressiva. Qualquer um que passe pela BR-101 e veja aqueles prédios, já vê a agressividade com a qual a especulação entrou ali e domina o local. Em Balneário, ao meu ver, pagando, tudo pode.

DIARINHO – Balneário já é uma muralha de concreto, e cogita-se a construção do maior edifício da América Latina, com 62 andares. A imprensa nacional recentemente descobriu que a faixa de areia é coberta pela sombra de prédios. De certa forma, o sol foi privatizado na praia Central. O que o senhor pensa a respeito?
PN – É triste que tenha gente que ache interessante uma praia que não tenha sol. Agora, esse boom imobiliário que tem em Balneário, muitas vezes a gente até pensa que é inexplicável. Será que tem gente pra comprar? Se vende isso? Uma praia completamente degradada, como é aquela praia Central de Balneário Camboriú, parece um pouco contraditório. De onde vem esses compradores? Quem são esses compradores? Qual é o papel da lavagem de dinheiro nesse boom do mercado imobiliário de Balneário Camboriú? Como é que se explicam prédios inteiros com 15, 20 andares vazios durante vários anos em Balneário Camboriú? É uma cidade cheia de mistérios. [O Ministério Público Federal, enquanto órgão fiscalizador, pode interferir nisso de alguma maneira?] O sistema judicial, o sistema investigatório brasileiro, não foi feito pra isso. Não foi feito pra investigar e punir esses grandes crimes, o grande crime organizado. Quando falo de crime organizado não falo desses aí que aparecem na televisão, esses traficantes de favelas. Eu falo do crime organizado e entranhado na administração pública, em todos os poderes, no grande empresariado, esse é o conceito de crime organizado. E o sistema judicial brasileiro como um todo – e isso Ministério Público, justiça, leis, não foram concebidos pra investigar e pra punir esse tipo de crime. Foram concebidos pra coibir a micro criminalidade, o que aparece no DIARINHO: o pequeno ladrão, o pequeno traficante. [Como é possível mudar essa situação?] Eu creio, pelo que vejo, que na via institucional isso não é possível. Como esses poderes poderiam mudar a si próprios, os parlamentos, os executivos, o judiciário? Eu creio que isso dependeria da mobilização, da pressão da sociedade. Acho que de outra forma não se muda não. Porque tá tudo muito bem, tão todos muito satisfeitos como estão. [Há um comodismo da sociedade…] Isso é uma coisa histórica. A sociedade brasileira é uma sociedade ibérica, que tem uma tradição muito conformista. Você conta com instituições degradadas de um lado, e de outro lado encontra uma sociedade amorfa. Mas ainda tenho a esperança de que a sociedade pode se mobilizar em alguns momentos. [E o que teria que acontecer para mudar esse conformismo? Conscientização? Educação?] Há a degradação do nosso sistema eleitoral, por exemplo, com financiamentos privados de campanha, onde os candidatos já se elegem com várias encomendas, não podem sair daquele script. As pessoas têm que conceber formas que saiam desse sistema eleitoral, que possam utilizá-lo também, mas fazer uma participação direta, seja por associações de bairros, seja por associações ambientalistas, de defesa do consumidor, dos direitos humanos. Eu creio que é por aí.

DIARINHO – Apesar das inúmeras tentativas do MPF de brecar o avanço da construção civil sobre a Praia Brava, os investidores falaram mais alto e a cada dia se tem notícia da liberação de mais um empreendimento. Não se ouve falar, contudo, em questões cruciais como a coleta de lixo ou a mobilidade urbana no bairro. Por que o poder público ainda não consegue uma contrapartida desses milionários empreendimentos que faturam milhões de reais vendendo apartamentos, mas deixam para o município sozinho resolver as questões urbanísticas?
PN – Simplesmente porque isso acarretaria um ônus, um custo aos construtores. Nós temos aqui na região uma democracia direta. A democracia da especulação imobiliária, que estabelece o que quer, decide o que quer. Então, se contrapartidas acarretam um ônus, obviamente elas não vão existir. [Essa questão da Praia Brava, especificamente, frustra?] O Roger [Fabre, também procurador do MPF] atuou muito nessa parte da Praia Brava, tentou vários recursos, e havia todos os motivos pra que não se construísse numa parte onde está se construindo porque é restinga, que é considerada área de preservação permanente, um tipo de vegetação que fixa dunas, que é importante pra conter o avanço do mar. No entanto, vai se construir, já está se construindo. Ele tentou de todas as maneiras, e não conseguiu resultado exitoso do poder judiciário. A gente vê o peso do poder econômico nisso tudo, é muito forte, e aí fica um trabalho difícil. [Chega um momento em que o MPF fica de mãos atadas?] Fica. E aí eu creio que dependemos muito de vocês, da sociedade. Vou dar o exemplo de Taquarinhas. Vocês poderiam dizer que Taquarinhas está preservada porque existe uma liminar concedida pela justiça em 2005 por causa de uma ação do Ministério Público Federal. Eu diria que não é bem assim. Eu diria que Taquarinhas só está preservada porque a comunidade se mobilizou para isso. Se a comunidade fizesse diferente, já teriam construído ali há muito tempo. [Existe o risco de acontecer com Taquarinhas o que aconteceu com a Praia Brava?] Se o poder econômico falar mais alto, certamente corre-se um sério risco.

DIARINHO – No ano passado, a audiência de conciliação convocada pela Justiça Federal mobilizou ambientalistas e estudantes, e naquela ocasião o juiz disse que quer finalizar o caso, dar a sentença. O senhor acredita que essa sentença possa ser favorável à construtora que quer fazer um resort em Taquarinhas?
PN – Taquarinhas é uma praia em que depois dela vem a restinga, que é uma vegetação de área de preservação permanente, depois já começam as declividades, as encostas, que são mata atlântica. É uma área em que não se poderia construir. O fato de ser APP, de haver laudos dizendo que é área de preservação permanente, que não pode construir, isso faz obviamente com que devesse haver uma decisão judicial proibindo a construção, mas eu acho também possível que haja uma decisão judicial permitindo a construção. Acho plenamente possível isso.

DIARINHO – Por que se permite que bons advogados questionem as leis que determinam que essas áreas sejam de preservação permanente? Há algum tipo de brecha na legislação?
PN – Primeiramente, as leis quando são feitas para proteger o meio ambiente, proteger o consumidor, proteger o cidadão em geral, já são feitas com algumas pequenas brechas de propósito, pra permitir que não sejam cumpridas. Ainda que haja trocentos laudos dizendo que aquilo ali é uma vegetação de restinga, que recobre toda a praia até o começo da encosta, que tem uma inclinação que não permite construção, pode haver um laudo judicial dizendo que não, que isso não é restinga, e que pode construir a vontade. Nós já tivemos ações em que havia vários laudos diziam que não se podia construir e na ação se decidiu ao contrário. [Mas se há tantos pareceres pela preservação, como se chega a uma decisão dessas?] É o convencimento do juiz.

DIARINHO – O senhor é o procurador responsável pela ação que impede a construtora Thá de erguer um resort em Taquarinhas. Ultimamente, a empresa tem mudado o discurso inicial, afirmando que vai proteger boa parte da área onde pretende construir o hotel e transformá-la em uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Como o senhor vê essa proposta?
PN – Infelizmente, depois desses dois anos em que eu estive aqui eu vi que os acordos são muito pouco cumpridos na área ambiental. Eles ficam realmente no papel, ou seja, a empresa promete construir apenas 20%, que 80% vai ser RPPN, mas daqui a pouco vão passar as vias de acesso pela RPPN, a RPPN vai ser chamada de área verde, vai haver ao invés de mata atlântica ou restinga um bonito jardim inglês, piscinas, decks, playgrounds. Daqui a pouco, você olha praquela praia e vê que quase tudo foi construído. Lá no papel está 80% de RPPN, na licença da Fatma, no registro de imóveis, e você vê que não foi aquilo. E aí já é o fato consumado. [O senhor já chegou a comentar, em entrevista ao DIARINHO, que os 20% anunciados pela Thá como o que pretende construir são, na verdade, o máximo que ela poderia utilizar se observada a lei…] O plano diretor previa praquela área ocupação máxima de 20%, depois teve uma pequena lei que alterou o plano diretor, apenas pra dizer que a ocupação daquela área dependeria da aprovação do plano de manejo, e que a previsão de plano de manejo praquela área, pra Costa Brava, passaria pela câmara de vereadores. Na verdade, 20% é o que eles poderiam ocupar mesmo ali. Agora, o porte do empreendimento, que prevê dois mil hóspedes e 1,4 mil visitantes ao dia, é incompatível com aquela praia, que tem 500 metros de comprimento e é uma pequena faixa de areia, depois vem a restinga, depois a morraria. Como é que eles vão botar um negócio desses em 20% de área construída? O que vai acontecer é que provavelmente eles não vão ocupar somente a morraria, que é geologicamente muito frágil e não teria como ser ocupada. O resto, a parte plana, seria toda ocupada.

DIARINHO – O argumento dos construtores para respaldar a ideia de instalar a RPPN é que reservas particulares seriam mais bem conservadas que os parques públicos, que são mantidos com dinheiro público. A criação dessas RPPNs, porém, também prevê a aplicação de recursos públicos para a sua manutenção. No seu ponto de vista, isso não é uma contradição?
PN – Tem parques de grandes extensões em que realmente é difícil conter invasões, porque os órgãos ambientais são muito maltratados, têm muita dificuldade de fiscalização. Não é o caso de Taquarinhas. Num pequeno parque, não seriam precisos recursos tão significativos. A Fatma recebeu recursos do Japão, justamente pra implantar unidades de conservação. Não seria muito custoso manter um parque ali. E é a única praia razoavelmente preservada, não digo nem de Balneário, mas da região centro-norte do estado. Então, botar ali um mega resort não tem cabimento.

DIARINHO – Tramita na assembleia legislativa um projeto para transformar Taquarinhas em parque estadual. O senhor acredita que essa seria uma boa alternativa para manter a praia intacta?
PN – Eu creio que sim, mas vai depender bastante da mobilização da sociedade. Quando houve a audiência pública no ano passado, em Balneário, pra discussão do projeto de lei do sargento Soares [deputado estadual do PDT], foi uma grande mobilização. As pessoas estavam lá, estavam se manifestando, colocando seu desejo de que existisse esse parque. Infelizmente tem alguns parlamentares, como o Marcos Vieira [deputado estadual do PSDB], que durante muito tempo impediu a tramitação desse projeto na comissão de Constituição e Justiça. Finalmente passou, mas aí na comissão seguinte, que era a de Finanças, ele era o presidente, e aí esperou até o dia 31 de dezembro pra dar um parecer contrário, e o projeto foi arquivado. Agora o sargento Soares entrou com o projeto novamente, e eu não sei como está a formação da assembleia, mas espero que o Marcos Vieira não seja presidente de nenhuma dessas comissões. Ele é uma pessoa, digamos, que parece estar tomada pela abordagem simpática da construtora Thá. Mas vamos ver. Estou otimista agora, neste ano, em relação à aprovação desse projeto de parque estadual. [Esta semana foi confirmada a nomeação do deputado Marcos Vieira como integrante da comissão de Finanças e Tributação. Ele não faz parte, mais, da comissão de Constituição e Justiça].

DIARINHO – Em novembro, o DIARINHO entrevistou o superintendente da Fatma, Murilo Flores, acerca da proposta do parque estadual, e ele afirmou que não é interesse do estado manter uma reserva tão pequena quanto Taquarinhas. A posição dele se justifica?
PN – Interessante. Às vezes, não se justifica porque a área é muito grande e pode causar(PROVOCAR ESPANTO – ) algum problema. Agora, é porque é muito pequena. Não, esse argumento é totalmente improcedente. É uma área que, apesar de pequena, tem uma riquíssima biodiversidade, a única praia preservada de todo o litoral centro-norte, é óbvio que deveria ali haver um parque. Há parques do tamanho de Taquarinhas e até menores. É completamente improcedente essa alegação do presidente da Fatma.

DIARINHO – Há situações em que construtores conseguem autorização pra erguer obras em locais polêmicos, o Ministério Público intervém, e devido à morosidade dos processos na justiça, muitas vezes o tempo é suficiente para que o empreendimento esteja em pé. Não são raras as situações em que a única penalidade dada pela justiça é uma medida compensatória que, em geral, se demonstra muito aquém do dano ambiental provocado. Como resolver essa questão de maneira definitiva?
PN – As construções de grandes empreendimentos, sejam edifícios, hotéis, em áreas que não seriam edificantes, são um problema que já começa na licença ambiental que a Fatma emite. Sobretudo a coordenadoria da Fatma em Itajaí não é um órgão ambiental, é um órgão expedidor de licenças, e quase todas viciadas. Agora mesmo, no rio Camboriú, o principal reservatório de água potável de Camboriú e Balneário Camboriú, que deveria ter preservada sua mata ciliar, dão licença pra construção de um edifício, o Marina Beach Tower, que vai ocupar não apenas a margem, onde está a mata ciliar, como vai avançar ainda 20 metros dentro do leito do próprio rio. Tão loteando o próprio rio. Aí depois perguntam por que tem enchente… Se as margens são ocupadas, se o próprio leito do rio é ocupado, pra onde é que vai a água da chuva? É óbvio que vai ter enchente. [Nesse caso, a construtora já conseguiu a licença de construção?] Um grande problema é que a Fatma, a Codam Itajaí [coordenadoria de Desenvolvimento Ambiental da Fatma], de forma ilícita, muitas vezes não fornece ao Ministério Público as cópias das licenças. [Isso deveria ser praxe?] Sim, nós temos poderes requisitórios. São licenças públicas, e os requerimentos nossos devem ser atendidos. A licença de construção do prédio, pra esse empreendimento, eu pedi pra Fatma durante oito meses e eles não me entregaram. Consegui por uma via transversa. Sei agora que já saiu a licença de instalação, que obviamente, eles também não me fornecem. Aí você vê bem o tipo de natureza de licenciamento que a Codam Itajaí faz…

DIARINHO – Existe o projeto Produtor de Águas, que está em fase de implantação no rio Camboriú, em que os rizicultores serão incentivados a replantar a mata ciliar. O senhor tem informação se esse tipo de projeto funciona?
PN – Funcionaria, mas em Balneário Camboriú certamente não foi implantado ainda e duvido que seja. O problema é que há toda uma fonte de degradação daquele rio por ocupação da margem, por empreendimentos como esse, pela questão do esgotamento sanitário, e, sinceramente, isso não vai ser resolvido pelo tipo de administração que tem em Balneário Camboriú. Não falo nem dos grupos políticos que se digladiam ali dentro. Creio que tanto um quanto o outro, não haverá muito diferença. Não creio que a partir desse caldeirão político que há hoje em Balneário vá sair qualquer coisa que seja benéfica à questão ambiental. [Isso está relacionado àquela situação que o senhor colocou no início da entrevista, que os empresários financiam as campanhas políticas? No caso de Balneário, a grande indústria é a construção civil…] Sim, claro, o problema é esse. Não é apenas ali, esse é um problema brasileiro. Mas é algo particularmente sensível ali.

DIARINHO – O conselho gestor da APA Costa Brava está suspenso desde que a justiça acatou um pedido do senhor, no final do ano passado. Por que 10 anos após a criação da APA, o conselho não consegue atuar?
PN – Porque meio ambiente não é o objetivo das pessoas que estão na prefeitura, seja agora, seja antes. Não é nem a vigésima ou trigésima prioridade. Não tem nenhuma importância. [O MPF tem meios de obrigar a prefeitura a encontrar uma solução?] Nós vamos tentar. Já interpusemos essa ação, vamos tentar sentar com a prefeitura pra identificar se é possível fazer um conselho minimamente representativo da comunidade. É claro que não vamos sentar num conselho de fachada, numa APA de brincadeira. Aquela região onde aconteceu o desastre de Angra dos Reis, no ano passado, por exemplo, era uma APA. Uma tarde eu estava vendo uma entrevista do secretário de Meio Ambiente de Angra dos Reis, questionaram como é que se deixou ocupar a área, embaixo dos morros, e a resposta foi que isso era com o conselho gestor da APA. Ou seja, existe até a criação de APAs pra legitimar crimes ambientais, pra dar um álibi pra administração através do conselho gestor. É claro que de um colegiado assim nós não vamos participar.

DIARINHO – O dono da construtora Thá argumenta que enquanto se discute a questão de Taquarinhas, deixa-se o restante da APA sem proteção pela falta do conselho e à mercê de todo tipo de ocupação. O senhor concorda com isso? Como o MPF pode atuar para resolver essa situação?
PN – Concordo com ele nesse ponto. Até acho que um colega falou que uma medida apropriada seria uma liminar que coibisse novas construções antes da aprovação do plano de manejo. Seria uma medida bem adequada, mas creio que muito remota. [A prefeitura fez uma determinação parecida na tentativa de resolver a questão de falta de estacionamento. Houve a moratória da construção civil no centro da cidade enquanto se discutia a obrigatoriedade dos prédios reservarem vagas para estacionamento público. Por que não se aplica a mesma regra na APA? Existem dois pesos e duas medidas?] Se está se fazendo isso na prática, eu diria que é porque se chegou a uma situação de inviabilidade de curtíssimo prazo, questão de dois, três anos. Já nas regiões das praias, da Costa Brava, não se está ainda nessa situação. As praias estão se degradando em ritmo acelerado, mas ainda tem um bom espaço ali pra degradar, destruir. Então essa medida de parar as construções até que se aprove o plano de manejo, creio que sob a ótica administrativa não vai sair. Judicialmente, também creio que não teria como. Seria necessário, mas diante do quadro de forças que existem aí, não vejo muita possibilidade.

DIARINHO – Itajaí está prestes a ganhar uma marina, proposta que tem sido acompanhada de perto pelo MPF. Como o senhor vê esse projeto?
PN – Seria uma pena destruir aquele último remanescente de mangue que tem ali. Porque creio que o projeto vai ser parecido com o da marina Tedesco, na Barra Sul. Vão construir um grande muro, vão destruir o mangue. Creio que é completamente equivocado, e não é uma coisa que vá dar valor agregado pra cidade. Ao contrário, desvaloriza a cidade uma coisa dessas… Você tem hoje o mangue, as pessoas podem caminhar pelo calçadão, ver os pássaros, é uma coisa bonita. E você vai ter ali um grande muro, com edifícios de barcos, não creio que seja razoável isso. E com que interesse? Porque o mangue é outra área de preservação permanente, que não poderia ser suprimida. Só há exceção pra destruir a APP quando há interesse social ou público, como uma tubulação de esgoto que passe embaixo de uma APP. Aí vão dizer que uma marina privada pra barcos de elevado valor é uma obra de interesse público? O projeto em si já vai, novamente, contrário à lei.

DIARINHO – O senhor trabalhou em outras regiões do país como procurador da república. Essas situações de desrespeito ao meio ambiente, de desrespeito ao espaço público, são exclusivas de nossa região, ou se repetem em outros lugares?
PN – Eu acho que talvez aqui se sinta mais, porque é uma região que tem uma natureza muito rica, uma beleza cênica excepcional, e uma biodiversidade impressionante. Quando se vê o quanto tinha de belezas, de riquezas, o potencial ecológico, como tudo foi destruído, e como poderia ter sido aproveitado de maneira, inclusive, a gerar mais lucro… Hoje, Balneário, e outras cidades da região, qual é o tipo de turista que atraem? É mais o turista de classe média-baixa, de São Paulo, do Paraná, do Rio Grande do Sul, da periferia de Buenos Aires, de Corrientes, de Entre Rios. Não atrai um turista qualificado, porque o turista qualificado chega na praia Central de Balneário Camboriú e sai correndo. O patrimônio ecológico que tinha aqui era muito valioso, e a destruição dele causou uma impressão maior nas pessoas.

DIARINHO – O senhor comentou, no início da entrevista, que só não se sente completamente realizado porque as peleias do Ministério Público nem sempre alcançam resultados positivos. Isso é uma impressão pessoal ou é sentido de maneira geral entre os procuradores?
PN – É uma visão geral. [Chega um momento em que se cansa de lutar por esses ideais?] Creio que sim, chega um momento em que cansa. Mas a minha aposentadoria está longe, temos que continuar. Já dizia, acho que foi o Churchill [Winston Leonard Spencer Churchill, político britânico], em 41, naquele período mais pessimista da guerra, que o problema não é lutar. É lutar sem esperança.

RAIO-X
Nome: Pedro Nicolau Moura Sacco
Idade: 43 anos
Natural de: Bagé/RS
Estado Civil: casado
Filhos: dois

Trajetória profissional: Diplomata, com atuação no Chile e na Venezuela. Procurador do Ministério Público Federal há seis anos. Atuou em Macapá/AP e Brasília/DF; está há dois anos em Itajaí